quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Canto-ria


Quando os Pássaros cantam,
O melhor é pensar na vida.
Pois não há desencontro,
Não há dúvida.
Há futuro perpassando a existência.
O pássaro canta e eu penso...
O pássaro canta e lamento o mundo.
Lamento o choro do desamparo.
Assim, se o pássaro canta,
Perturba-me o coro de crianças,
Pedindo um mundo melhor.
Quando os pássaros cantam...
                          
                                    Alberto Pantoja

Viva!


Quando tudo for poeira
Quero te ver inteira,
Para poder te abraçar, te abraçar...
E ter a certeza de que a vida é assim,
Pois é apenas um sopro de viver.

                                      Alberto Pantoja

Desvio do destino


O tropeço sinaliza o equívoco,
Do percurso que consente o não sentido.
Da sombra que acompanha a alma,
Pois, o que habita a vida é o outro em mim.
Não há como não ser. Até quando serei?
O percurso levou-me a desvios do destino.
Ainda há pegadas do fantasma que vigia,
Para sublimar a ilusão do dizer nada.
Assim, de todo impasse um soluço.
Basta sofrer para não se querer a noite!
Sabendo-se que, em algum dia, se resumirá a vida.
Embora, o fantasma se encarregue de afastar a sombra,
Para outra esquina.

                                                         Alberto Pantoja

Abismo


O sol traduziu três poemas da lua,
Num dizia de uma senhora cansada,
E já sem aptidão para a vida...
Compreendia que o tempo passou,
E que já não valia retornar lá onde esteve.
Noutro, o registro trazia um jovem rapaz,
Que desejava ter vivido tudo...
Não compreendia que somente se vive,
O que é possível, ou o que não fica obscurecido,
Pelo não dá conta de ter sofrido.
O sol sentiu pela lua. Pois, como é difícil!
A solidão da noite, talvez, não seja tão diferente,
Da ilusão da alegria do dia.

                                                   Alberto Pantoja




Alhures



O medo exacerba todos os sentimentos.
O sentimento posto presume um tempo outro.
Em outro tempo já fomos outro e não lembramos do sentimento.
O sentimento requer lembrança...
Mas a memória se recusa e se faz eufórica.
Assim, não permite tempo contado, não supõe lógica.
Somente sentimento e uma solidão de não se sabe o quê.

                                                          Alberto Pantoja

Querer viver!


Toda alma se desencontra diante do vulnerável amanhã.
Todo corpo se fragiliza frente o surpreendente da vida.
A vida fica com medo quando o corpo, sem alma.
O fôlego não é medido pela respiração,
Mas pelo soluço de querer viver.
A morte, ou, de sair da vida, ou, de ir pra nunca mais,
Deve ser indesejada.
Amanhã, ou, hoje, o palco de quem quer viver.

                                                 Alberto Pantoja

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Rosto Vago


Encontrei-a em um dia escuro de Agosto. Algo em mim mobilizara-se. Não sabia do que se tratava. Talvez um pormenor de surpresa. Tentava compreender, discernir. Porém, um rosto se imprimia em meu ser sem permitir defesa. Um rosto que gerava um semblante incompreensível. Não sei lhes dizer se de dor ou de desencontro, de alheamento. Com convicção não era uma máscara dessas que nos colocam no rosto, para que nos represente no circuito existencial e social, forjada por nossos laços parentais. Apenas um rosto que denunciava um enredo triste e de profunda angústia. Perplexo com aquele quadro que só podia ser humano e mais nada, perguntei-lhe, “o que a trazia até mim”? Deu-me um sorriso vago e imediatamente, disse-me: “você é um assassino.” Lágrimas sem gemido, sem nenhuma afetação, caíram sobre aquele rosto jovem, mas já com rugas denunciantes de uma vida acostumada ao trágico.
Sua fala chamando-me de assassino indicou-me que ela tinha intenções premeditadas. Talvez, um eu de dor teria de ser eliminado ou subtraído para uma outra convenção existencial ou, até, para um desempenho de vida menos submetido à ênfase da carência.
À medida do tempo e dos dias sinalizava-se que ela, inteligente e muito sensível, pedia que a compreendesse, quanto a um seu sentimento, a uma constatação: seu desamparo. Pois tinha pai e não tinha; tinha mãe e não tinha. Tem pai, vaidoso e abastado. Tem mãe, de soberba rara em alguém.
Emergente em nossos encontros e paralelamente a esses, aparecia um novo estar-no-mundo, uma nova modalidade de viver. A agressividade, o desequilíbrio e os gritos reivindicantes deram lugar a um relativo e pequeno apaziguamento. Esse estado de menos perturbação e de mais perplexidade, precipitava menos busca paterna, e essa, até então, interminável busca sempre dava na ironia e na indiferença. Convictamente, esse precedente, o curto circuito mais atroz ao qual o homem possa estar submetido. Pois, impedidor de futuro com paz razoável. Aquém ou além do registro desse pai fomentador de desespero, havia a mãe que impedia sentimento de amparo, facilitador de esperança.
Ela se consignava em mim para fazê-la viver. Eu permitia. Eu a recepcionava e sugeria novo script. E, assim, nos convencíamos de soluções. Forjávamos sentimentos outros, que não aqueles do drama paterno. Provocávamos da mesma vida, uma vida outra.
Criança chorava dia e noite. Evento, que denunciava uma congestão de afetos sem significação para o caminho da gestão da vida com sentido. Hoje, são possíveis sorrisos motivados. Vê-se a expressão de um rosto recipiente de conteúdos plausíveis, num rosto com rugas que perfazem o “mapa” de um viver retomado, resgatado, vetorizado e valorizado para um amanhã que acontecerá pleno.
Eu fiquei e ela se foi. Eu sem saudade e ela com vontade de viver. Talvez, podendo olhar para traz sem dor.

                                                                                                                                 Alberto Pantoja